Acordo assustado, suor escorrendo por minha testa. Oque foi esse sonho? Não consigo lembrar detalhes dele, só sei que foi aterrador. Já eram 7:15 da manhã, mas continuo deitado. Essa não! Vou me atrasar para o trabalho! Quando pulo da cama, lembro que fui demitido ontem. Já que não consigo mais voltar a dormir, então decido levantar mesmo.
Não tenho apetite, me sinto desanimado. Foram quatro anos trabalhando na mesma empresa, para ser demitido assim, de uma hora para outra. Mesmo com essa crise, não acho justo logo eu ser demitido. Fiz sempre tudo por eles, e é assim que me recompensam? Uma voz continua ecoando na minha cabeça "Não é justo! Não é justo! Não é justo! Não é justo!" ela diz.
Devo estar perdendo a razão, quem em sã consciência fica ouvindo vozes na própria cabeça? "Você mesmo". Ótimo, agora estou discutindo comigo mesmo. "Algum problema nisso?". Dá um tempo tá? Não estou com bom humor. "Eu sei, eu sou você, lembra?". Certo, agora está decidido, vou ignorar essa "voz".
Para tentar me aclamar, saio para uma caminhada. Apesar do céu azul e sol brilhando, corre uma brisa fria. Caminho até chegar à praça, onde decido sentar no banco e descansar um pouco as pernas. Não lembrava que estaca tão fora de forma assim. "Nem me diga". Respiro fundo, e tento pensar no que fazer daqui para frente. Como vou me sustentar? Ou então, oque vai ser da minha irmãzinha? Sem nossos pais ou avós, eu sou o único com que ela podia contar, internada no hospital a mais de dois anos.
Milhões de pensamentos correm por minha cabeça. Não se mais oque fazer, não tenho mais nada, as contas do hospital que já estavam atrasadas agora nem poderão ser pagas. "Estamos perdidos". Já sei disso, cale a boca. "Não seja tão mal educado consigo mesmo". Eu falo comigo do jeito que eu quiser! Oque estou pensando? "É, você não devia ser tão agressivo". Não estou falando com você! "E com quem está falando então?". Comigo mesmo droga! "Mas eu sou você". Chega! Não aguento mais! "Ei, oque vai fazer?".
Vejo um ônibus vindo pela rua, um daqueles "sanfonas" amarelos. Perfeito. "Ei! Ei! Ei! não vá fazer nenhuma idiotice!". O ônibus acelera rápido na descida. Não vai nem notar. Ele chega perto o bastante. Atiro-me na frente. Sinto cada osso do meu corpo sendo quebrado. Ouço o motorista frear. Em vão. Saio voando pela rua, quico no chão umas duas vezes antes de parar. Não sinto dor, minha mente está silenciosa outra vez. O sangue escorre quente por meu corpo. Conforme perco consciência, tenho certeza de que a voz não irá mais me atormentar, são meus últimos segundos de vida. "Os últimos segundos da NOSSA vida". Desgraçado.
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